MULHERES DE OURO: EXPERIÊNCIAS VIVIDAS POR ESPOSAS DE GARIMPEIROS QUE SE TORNARAM PROFESSORAS EM ITAITUBA, PA
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Resumo
No contexto geográfico, político, econômico, social e educacional, referenciado a partir
da conjuntura amazônica, tomamos a cidade de Itaituba no Estado do Pará como cenário
para esta pesquisa. Os sujeitos investigados foram esposas de garimpeiros que se tornaram
professoras nesse contexto, e nosso olhar investigativo abrangeu as experiências vividas
segundo suas lembranças. Nossos objetivos foram: descrever, contextualizar e comentar
experiências peculiares de magistério, a partir de lembranças narradas por protagonistas da
época do ouro. Os estudos, que se inserem na Linha de Pesquisa Formação de Professores
e Práticas Educativas, identificaram sua problemática no fato de que essas mulheres de
garimpeiros tornaram-se professoras sem que tivessem a formação escolar para o
magistério, para atender as crianças do município. Partimos das seguintes questões: qual é
a experiência vivida pelas mulheres de garimpeiros que atuaram como professoras no
município de Itaituba/PA na época do ciclo do ouro? Que sentido atribuíram a essa
experiência? De quais saberes se valeram para exercer esse trabalho? Há uma dimensão
crítica em suas lembranças? Em que espaços e circunstâncias a realizaram? Para
fundamentar nossas perguntas, mais que respondê-las, fizemos reflexões sobre o eu pesquisador e as circunstâncias em que a pesquisa se insere. Apresentamos a região com
seus ―surtos‖ de desenvolvimento, primeiramente com o ciclo da borracha, que
historicamente foi marco desenvolvimentista da região, seguido do ciclo do ouro, que
ocorreu nas últimas três décadas do século passado, deixando marcas significativas no
município. Realizamos a leitura da época do ouro à luz de Lanni (1979), Moreira (2003), e
Santos (2008), dentre outros. Além dos estudos teóricos, utilizamos as narrativas como
procedimento metodológico, segundo as concepções de Walter Benjamim (1994) e de
pesquisadores que também realizaram seus trabalhos de campo numa perspectiva
benjamiana, a saber, Ecléa Bosi (1994) e Carlos Brandão (2001). Nesta investigação
aproxima-nos do método fenomenológico, em diálogo com Bachelard (1990), Merleau Ponty (2006) e Abreu-Bernardes (2008), e realizamos uma abordagem qualitativa, como é
entendida por Brandão (2003). Na articulação da análise das falas das narradoras,
organizadas em três unidades de significado — as lembranças das circunstâncias e dos
espaços, as lembranças do ofício e a crítica das lembranças — voltamo-nos a Tardif (2002)
que nos possibilitou discutir os saberes docentes da experiência. Conciliar atividades
domésticas, desafiar maridos, preconceitos, ausência de estrutura, distâncias, má
remuneração, falta de experiência e de formação no que se solicitava fazer, mas, apesar
disso, uma grande vontade de escolarizar as crianças constituíram sua identidade
docente.Pensamos que a partilha de um conhecimento sobre vivências desse magistério
peculiar poderá contribuir para a discussão sobre o ofício e a formação do professor.