A ESTIGMATIZAÇÃO DE ALUNOS AGRESSORES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA REFLEXÃO A PARTIR DE DOCENTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA
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Resumo
Esta dissertação tem como tema a estigmatização de alunos da educação básica que, em
determinado momento da vida escolar, foram identificados como autores de violência contra
colegas ou professores. Desenvolvida na linha de pesquisa “Processos Educacionais e seus
Fundamentos”, trata-se de um subprojeto do Observatório da Educação “Produção social da
diferença e negação da alteridade: um estudo da violência simbólica nas relações escolares”
(OBEDUC/CAPES), em que são analisadas diversas relações existentes entre violências,
culturas e práticas escolares marcadas pela negação do Outro como sujeito moral. O objetivo
mais amplo do presente trabalho, realizado em uma escola pública do ensino fundamental, é
compreender as percepções dos professores acerca do aluno apontado como agressor e/ou
violento, para, assim, problematizar a questão dos estereótipos e da manutenção de estigmas
na educação escolar. Trata-se de uma pesquisa realizada em abordagem qualitativa, sendo que
a matriz epistemológica adotada advém da Sociologia compreensiva (WEBER, 1982).
Envolvendo pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo, o processo de investigação envolveu
os seguintes procedimentos: mapeamento do estado do conhecimento e revisão da literatura;
contextualização do campo e do locus da pesquisa; coleta, sistematização e análise dos dados
na modalidade categorial temática (BARDIN, 2011). Ao final, fez-se a triangulação
(DENZIN, 1989), envolvendo a discussão do material à luz do referencial teórico, que parte
da sociologia bourdieusiana para estabelecer diálogos com estudiosos das relações de poder
(FOUCAULT, 1993; 1994; 1999; 2002), da produção social de estereótipos e estigmas
(ROSCH, 1977; GOFFMAN, 1975, 1982; HELLER, 1989), das agressividades na infância e
na adolescência (WINNICOTT, 2002) e das violências na escola (CHESNAIS, 1981;
DEBARBIEUX, 2002; CANDEAU, 1999). Como resultados, nota-se que, entre os docentes
abordados, prevalece o entendimento de que agressividade e violência são fenômenos da
mesma ordem e estão relacionados a uma condição patológica, para a qual a família do aluno
e sua comunidade de origem teriam contribuído diretamente. Constata-se, ainda, que quase a
totalidade dos docentes não percebe qualquer participação da escola na ocorrência de
violências em seu interior, seja considerando suas ações ou omissões. Pode-se concluir que
esses entendimentos tornam-se complicadores das relações escolares, pois envolvem, além de
uma carga de preconceitos dos quais nem sempre se tem consciência, também a incapacidade
de perceber que a agressividade não é, em si mesma, uma potência destrutiva. Sem perceber
isso, escola e professores perdem a oportunidade de contribuir para a condução da
agressividade de crianças e adolescentes a fins não violentos. Por fim, as análises também
reforçam a hipótese do projeto mais amplo, de que a eficácia de projetos de enfrentamento e
redução de danos causados pela violência na escola não se dissocia de um trabalho de
desnaturalização da violência institucional.